3. Anos de estudo

A Média de Anos de Estudo e a Expectativa de Anos de Estudo são Indicadores de fundamental importância e de forte ligação entre si. Ambos exercem influência significativa no processo de qualificação profissional e, portanto, na construção do capital humano de um país.

Ainda que, entre os anos de 1870 e 2019, a média de anos de estudo no Brasil tenha crescido de forma semelhante ao que cresceu à média mundial dos últimos 147 anos, o país está ligeiramente abaixo, com 7,8 anos.

Gráfico 7 | Fonte: Eight Data Intelligence com dados da OWID e ONU

O indicador brasileiro está praticamente no mesmo patamar dos Estados Unidos em 1930, no auge da maior crise econômica do século XX. Em dias atuais, essa diferença na expectativa de anos de estudo ultrapassa 70%, considerando os 13,7 anos de tempo médio que um estudante norte-americano permanece no sistema educacional.

Já no vizinho Chile (Gráfico 8), a expectativa de anos de estudo atualmente é 32% maior do que a média brasileira, ou 10,3 anos.

Se em 1870, no início da medição, os indicadores de todos os países apresentavam uma situação equilibrada, com taxa média pouco abaixo de 1 ano e sem muitas discrepâncias (Gráfico 9), no último ano analisado, ocorrem variações extremas entre 2 e 14 anos nos níveis mínimo e máximo.

Gráfico 8 | Fonte: Eight Data Intelligence com dados da ONU
Gráfico 9 | Fonte: Eight Data Intelligence com dados da OWID e ONU

3.1  Relação entre anos de estudo e o PIB per Capita 

Já em relação ao crescimento de Anos de Estudo, o Brasil subiu em média 9,5% entre 1870 e 2017, com picos de 62% em 1900, 30% em 1905 e 33% em 1910. Esse resultado é muito similar ao de países vizinhos como Argentina, Chile e Colômbia, que fecharam o período com média pouco acima de 7%. A exceção ocorre com a Bolívia, que chegou a um crescimento médio de 11,4%, com pico de 60% em 1925. Como o país detinha uma média muito baixa, nem mesmo os picos de crescimento elevaram a média de Anos de Estudo na Bolívia ao patamar semelhante de países em desenvolvimento.

Outro fator relevante é que essa média de anos de estudo tem uma relação com o aumento do PIB per capita, com algumas exceções (como Luxemburgo, que é outlier; e alguns países do mundo árabe nos quais essa lógica não se aplica). Com isso, à medida que aumentam os anos de estudo o PIB per capita tende a aumentar também.

Gráfico 10 | Fonte: Eight Data Intelligence com dados da OCDE e ONU

3.2  Impostos e proteção à Propriedade Privada influenciam a média de anos de estudo

O fato de haver evidências de que quanto maior a média dos anos de estudo para as pessoas com 25 anos ou mais, maior tende a ser o PIB per capita de um país, torna relevante a busca pelo entendimento sobre quais fatores poderiam causar ou influenciar positiva e negativamente a média de anos que um adulto se dedica aos estudos.

Do ponto de vista estatístico, oito variáveis são muito relevantes para prever o tempo médio (em anos) que um adulto vai se dedicar aos estudos.

Figura 1 | Fonte: Eight Data Intelligence com informações da Heritage Foundation

Uma das preditoras mais importantes é o percentual de impostos que uma empresa paga e os gastos governamentais, exercendo uma relação negativa para a média do tempo que um adulto se dedica aos estudos. Ou, quanto maior a tributação e os gastos de governo, menor será o tempo de estudo.

Gráfico 11 | Fonte: Eight Data Intelligence com dados da OCDE

O efeito oposto ocorre nos países em que há maior proteção à propriedade privada: quanto mais alta, as pessoas tendem a estudar mais. O mesmo ocorre com a liberdade para se fazer negócios, com menor relevância que as demais, mas também relacionada positivamente à variável predita.

Um ponto importante a ser explicado é que, da mesma forma que o gasto governamental alto pressiona para que a sociedade tenha uma quantidade menor de anos de estudo, a saúde fiscal exerce uma influência positiva. Isso significa que o desperdício de gastos do governo impacta negativamente a média de anos de estudo de um adulto, da mesma forma que a carga tributária.

O modelo matemático utilizado (Regressão Linear Múltipla Stepwise do tipo Backward) testou o comportamento e a variação de 70 indicadores de 186 países. A equação final trouxe modelo estatisticamente relevante capaz de prever a variação da Média de Anos de Estudo de um Adulto.

Equação 1 | Eight Data Intelligence
Gráfico 12 | Fonte: Eight Data Intelligence
Gráfico 13 | Fonte: Eight Data Intelligence com dados da Heritage Foundation

3.3 Falta de Saneamento e Analfabetismo dificultam maior expectativa de anos de Estudo

Fortemente correlacionada com os indicadores de Frequência e Atraso Escolar (Ensino Básico e Fundamental), a Expectativa de Anos de Estudo aos 18 anos está associada a indicadores de analfabetismo, ao acesso a Saneamento Básico e, por sua vez, ao Desenvolvimento Municipal. Portanto, a falta de acesso a esgoto e água encanada e o maior número de pessoas não alfabetizadas com 15 anos ou mais podem influenciar negativamente todas as expectativas e chances de dedicação ao estudo durante toda a vida escolar de um aluno.  

A Expectativa de Anos de Estudo aos 18 anos se refere ao tempo médio dedicado à escola pelo qual uma geração de crianças que ingressa no sistema de ensino deverá cursar até atingir a maioridade, caso a grade educacional se mantiver ao longo de sua vida escolar (Eight Data Intelligence, com dados do IBGE).

Outra hipótese levantada é de que pessoas que tiveram acesso à alfabetização possam ter mais chances de compreender a importância dos estudos e incentivar ou dar mais condições educacionais a seus filhos, já que a expectativa de anos de estudo de um tem uma relação negativa com as taxas de analfabetismo dos habitantes com 15 anos ou mais de -78,8%. Ou seja, assim como ocorre em relação aos indicadores deatraso escolar, à medida que a taxa de analfabetos diminui, a expectativa de anos de estudo tende a aumentar (Eight Data Intelligence, com dados do IBGE).

E_ANOSESTUDO
Correlação de PearsonSig. (bilateral)N
T_ATRASO_2_FUND-.912**0.00016695
T_ATRASO_2_BASICO-.907**0.00016695
T_ATRASO_0_FUND.902**0.00016695
T_ATRASO_0_BASICO.895**0.00016695
T_FUND11A13.822**0.00016695
T_FUND12A14.822**0.00016695
T_ANALF25A29-.805**0.00016695
IDHM.803**0.00016695
T_ANALF18A24-.801**0.00016695
T_AGUA.790**0.00016695

Há também o fato de que a expectativa de anos de estudo é mais uma variável educacional relevante que sofre impacto do acesso à infraestrutura. Portanto, quando elevados os níveis de acesso ao serviço de água encanada e Desenvolvimento Municipal, também tende a aumentar a Expectativa de Anos e vice-versa.

Mapa 7 | Fonte: Eight Data Intelligence com dados do IBGE

Ainda que nenhuma dessas correlações implique em causalidade entre as variáveis, elas não ocorrem ao acaso, pois a probabilidade dessas variações ocorrerem está em um nível de confiança bilateral de 99%. Isso indica que uma política direcionada para redução do analfabetismo e promoção de melhorias em infraestrutura podem aumentar.

3.4 Anos de estudo por gênero

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, divulgada pelo IBGE em 2018, a expectativa média de anos de estudo para mulheres com 15 anos ou mais é de 9,7 anos. Para os homens na mesma faixa etária, a taxa é de 9,3. Diante disso, é possível afirmar que, em média, as mulheres dedicam-se 4,3% a mais aos Anos de Estudo do que os homens.

Gráfico 14 | Fonte: Eight Data Intelligence com dados da Pnad, 2019
Gráfico 15| Fonte: Eight Data Intelligence com dados da Pnad, 2018

3.5 Anos de estudo não está relacionado ao GINI

No Brasil, a Média de Anos de Estudo para pessoas com 25 anos ou mais — aferida pela última vez em 2017 — não apresenta nenhuma relação estatística com a concentração de renda. (Eight Data Intelligence com dados da Pnad Contínua; IBGE, 2018).

Além disso, o índice de correlação entre esses dois indicadores é de apenas 3%, que é considerado muito fraco, por ser próximo de zero, de modo que elas nem mesmo variam ao mesmo tempo e no mesmo sentido (positivo ou negativo). Portanto, não se pode afirmar que o aumento ou diminuição da concentração de renda no Brasil exerce influência na Média de Anos de Estudo para pessoas com 25 anos ou mais.

Para que a variância do Índice de Gini pudesse ser usada para prever ou inferir a variação da Média de Anos de Estudo, essa probabilidade deveria ser, no mínimo, de 95% (ou “Valor p” menor ou igual a 0,05). O índice de Gini medido no Brasil pelo IBGE é 0,547.

Gráfico 16 | Fonte: Eight Data Intelligence com dados da Pnad Contínua; IBGE, 2018